Carlos Frayão

Sobre o crescimento na Europa (e não só) de uma extrema direita fascizante

06 de Outubro de 2022


Depois da França, onde o Rassemblement National, de extrema direita, de Marine Le Pen, alcançou nas eleições presidenciais uns até então inimagináveis 41,45% dos votos dos franceses e depois da Suécia, onde outro partido de extrema direita, o dos Democratas Suecos, alcançou o segundo lugar nas eleições parlamentares, foi agora a vez de Itália, onde os Fratelli d’Italia, de Georgia Meloni, também de extrema direita, foram os mais votados nas eleições legislativas e vão governar em coligação com dois partidos, igualmente de extrema direita.

A extrema direita, porém, não tem crescido só na Europa, como foi notório em 2016 e 2018 com as vitórias de Trump e de Bolsonaro e como se viu com o resultado que este obteve na primeira volta das eleições presidenciais brasileiras do passado domingo.

Tenho dificuldade em compreender os dirigentes do PS, do PSD e de outros partidos do impropriamente chamado “centro” político  português quando se mostram preocupados com o crescimento da extrema direita.

As suas preocupações são inconsequentes porque se recusam a reconhecer que a extrema direita só tem logrado crescer – com o populismo, o nacionalismo, as soluções autoritárias, a intolerância, o racismo e a xenofobia, que, entre outros traços, a caracterizam – porque tem podido cavalgar as ondas de descontentamento que varrem os países da Europa, incluindo Portugal, em consequência do aumento da pobreza, do aprofundamento das desigualdades, da generalização da precariedade, dos efeitos da globalização, em especial das desindustrializações dela decorrentes, e do incremento das migrações.

E são preocupações hipócritas porque os que as manifestam não aceitam que são eles próprios que promovem ou apoiam as políticas europeias e nacionais de inspiração neoliberal que, para mitigar as crises económicas do sistema, impõem sacrifícios apenas aos que vivem do seu trabalho e de lucros e rendimentos modestos.

Os media apressaram-se a assegurar que o resultado das eleições italianas não foi um revés para a democracia porque Meloni suavizou o seu discurso, flexibilizou o seu programa, já não quer que a Itália saia da UE e deixou de se assumir como fascista…

Na verdade, à semelhança do que fizeram Marine Le Pen e outros dirigentes de partidos da extrema direita, Meloni procurou, com vista à campanha eleitoral, disfarçar as origens dos Fratelli d’Italia e conferir-lhes uma imagem mais respeitável…

Mas a mesma Meloni, que já confessou ser admiradora de Mussolini, publicou no ano passado um livro intitulado I Am Giorgia, no qual admitiu que «se identifica com os herdeiros de Mussolini»1...

Por outro lado, desenvolveu a sua campanha eleitoral sob a ominosa trilogia Deus, Pátria e Família e, quando fundou em 2012 os Fratelli d’Italia e os proclamou herdeiros do Movimento Sociale Italiano - Destra Nazionale (MIS) – fundado em 1946 por ex-veteranos do regime fascista, do qual Meloni foi dirigente – transpôs o emblema do MIS para os Fratelli d’Italia

Cientes de que as actuais opiniões públicas continuam (felizmente) a condenar os fascismos do século XX e os seus atrozes crimes, os novos partidos inspirados em ideologias fascistas nem sempre estão interessados, por razões táctico-eleitorais, em incluir explicitamente nos seus programas todos os pontos que caracterizaram aqueles regimes…

Meloni não me convenceu, em suma, de que a respeitabilidade que tentou dar aos Fratelli d’Italia tenha sido mais do que uma operação de cosmética… 

André Ventura do Chega! felicitou Meloni pela sua vitória, augurando que ela levará a uma «reconfiguração política da Europa» e preconizando que «estes ventos de mudança irão chegar a Portugal».

Alguma comunicação social cultiva polémicas sobre se os Fratelli d’Italia serão um partido de extrema direita ou um partido fascista, ou neo-fascista, ou proto-fascista, ou ainda pós-fascista, como alguns também lhe chamam...

Reitero a afirmação, contida no título deste escrito, de que os Fratelli d’Italia, o Rassemblement National, o Chega!, Trump e Bolsonaro são partidos e dirigentes de uma extrema direita fascizante, isto é, «que denota influência (...) fascista», conforme definição constante do Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

1 Consultável em www.bbc.com/portuguese/internacional-63003142.

 

O autor não segue as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.

Depois da França, onde o Rassemblement National, de extrema direita, de Marine Le Pen, alcançou nas eleições presidenciais uns até então inimagináveis 41,45% dos votos dos franceses e depois da Suécia, onde outro partido de extrema direita, o dos Democratas Suecos, alcançou o segundo lugar nas eleiçõe…





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