Carlos Frayão

Onde é que eu estava no 25 de Abril (III Parte)

07 de Junho de 2024


Escrevi, no final da minha crónica anterior, que «resolvemos bem» o problema de fazer entrar um clandestino, à luz do dia, numa cidade como Coimbra, onde andávamos sempre vigiados pela PIDE.

O que nós – os dois membros do Comité Local de Coimbra do PCP então reunidos com o António Lopes, o funcionário do Partido – «resolvemos bem» foi que este ficaria na Mealhada e que alguém menos sinalizado na PIDE viria buscá-lo para o levar para Coimbra e para o instalar, provisoriamente, em sua casa…

Só estávamos naquele momento na posse de duas informações: aquela que eu recebera com a visita inesperada do meu amigo Álvaro Matos, que me dissera de que uma coluna militar ia sair nessa noite da Figueira da Foz em direcção a Lisboa, inserida num levantamento para «instaurar a democracia»; e aquela que o António Lopes nos trouxera de que tinha ouvido dizer, na paragem do autocarro, que em Lisboa havia tropas na rua e que a rádio estava a pedir às pessoas para não saírem de casa…  

Eu e o Victor Costa regressámos a Coimbra, cada um no seu carro, cerca das 10:00 horas, depois de o Victor Costa ter combinado com o António Lopes quem seria a pessoa que o viria buscar, combinação que não ouvi, cumprindo, assim, a regra conspirativa de não ficar a conhecer, desnecessariamente, nomes ou contactos de organizações do Partido a que eu não estava ligado: para não escutar tal conversa saí do carro (também costumávamos tapar os ouvidos para cumprir essa regra).  

Vim depois a saber quem foi a pessoa que naquele dia foi buscar o António Lopes e o alojou em sua casa (além de colega do Victor Costa, portanto também docente da Faculdade de Ciências, era um amigo da sua confiança pessoal e política).

Logo que cheguei a Coimbra, fui para casa para ligar o rádio e ouvir notícias…

O Rádio Clube Português (RCP) estava a difundir marchas militares, mas, pelas 10:30 horas, interrompeu-as para emitir um comunicado que não me deixou tranquilo… Transcrevo-o, parcialmente, dos arquivos do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra: «O Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas constata que a população civil não está a respeitar o apelo já efectuado várias vezes para que se mantenha em casa. Pede-se mais uma vez à população que permaneça nas suas casas a fim de não pôr em perigo a sua própria integridade física».

O RCP retomou as marchas militares e emitiu, pelas 11:45 horas, um novo comunicado do MFA com o qual, desta vez, exultei! Resumo-o a partir da mesma fonte: «Na sequência das acções desencadeadas na madrugada de hoje, com o objectivo de derrubar o regime que há longo tempo oprime o País, as Forças Armadas informam que de Norte a Sul dominam a situação e que em breve chegará a hora da libertação».

De tarde, no Café da Clepsidra, uma cooperativa académica de consumo a cujos primeiros corpos gerentes eu pertencera, segui os acontecimentos com dezenas de colegas, na sua maioria dirigentes e quadros do movimento estudantil. Aplaudimos, emocionados, ao fim da tarde, o comunicado do MFA que informou que «se concretizou a queda do Governo, tendo Sua Exª o Prof. Marcelo Caetano apresentado a sua rendição incondicional a Sua Exª o General António de Spínola».

À noite assisti na RTP, no Café Atenas, à reportagem do cerco dos militares da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, comandados pelo Capitão Salgueiro Maia, ao Quartel do Carmo, onde Marcelo Caetano e alguns ministros se tinham refugiado, com centenas de populares – contrariando os apelos do MFA para ficarem em casa – a apoiá-los e a ovacioná-los, inclusive quando o blindado Chaimite disparou uma rajada sobre a varanda superior do Quartel para forçar a sua rendição.

Ao princípio da madrugada, no mesmo Café, assisti à apresentação na RTP dos membros da Junta de Salvação Nacional (JSN), cujo Presidente, o General Spínola, fez uma intervenção, na qual, ao afirmar que a JSN fora constituída para «assegurar a ordem» e para garantir «a sobrevivência da Nação como pátria soberana no seu todo pluricontinental», deixou claro que tinha pressa em acabar com a revolução nascente e que não queria reconhecer às colónias portuguesas e aos seus povos o direito à independência e à autodeterminação…

Eu, o Victor Costa e outros elementos do Movimento Democrático de Coimbra tínhamos falado, ao fim da tarde, da necessidade de reunirmos no dia seguinte os democratas e antifascistas mais destacados e influentes da cidade.

Fui descansar convencido de que era imperioso que a população de Coimbra viesse para a rua apoiar o MFA tal como a população de Lisboa já estava a fazer.

Só no dia seguinte saberia que as autoridades civis e militares de Coimbra se recusavam a aderir ao levantamento militar que derrubara o regime fascista…

Escrevi, no final da minha crónica anterior, que «resolvemos bem» o problema de fazer entrar um clandestino, à luz do dia, numa cidade como Coimbra, onde andávamos sempre vigiados pela PIDE.

O que nós – os dois membros do Comité Local de Coimbra do PCP então reunidos com o António Lopes, o funcionário do Partido &…





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