Carlos Frayão

Onde é que eu estava no 25 de Abril… (II Parte)

14 de Maio de 2024


A reunião do Comité Local de Coimbra (CLC) do PCP da manhã de 25 de Abril de 1974 tinha que se realizar no respeito pelas regras conspirativas cujo cumprimento permitiu ao PCP, durante 48 anos, resistir a uma feroz repressão policial e fortalecer-se e assumir um papel cada vez mais importante na luta do povo português contra a ditadura.

Acresce que ia participar na reunião um funcionário ou um revolucionário profissional (um clandestino) do PCP, ou seja, um comunista ao qual, como já acontecera a muitos, por estar referenciado pela PIDE e por correr o risco de ser preso, o Partido ajudara a obter outra residência e munira com um bilhete de identidade falso para poder continuar a participar na luta.

O CLC do PCP era composto por três militantes: por mim próprio, que era estudante do 4º Ano de Direito e membro do Secretariado da Redacção da Revista Vértice; pelo Victor Costa, Assistente da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, falecido, infelizmente, em 2018; e pelo Jorge Seabra, recém-licenciado em Medicina, hoje reformado, que em 1975 foi um dos organizadores do Serviço Médico à Periferia – ponto de referência na história do Serviço Nacional de Saúde – e que nos anos 90 foi Director do Hospital Pediátrico de Coimbra.

Os 3 membros do CLC do PCP deviam encontrar-se às 07:30 horas no recinto da Feira de Santa Luzia, actualmente chamada Feira de Barcouço, distante cerca de 16 kms de Coimbra, para depois recolherem o funcionário do Partido num local a menos de 10 kms de distância, no início da estrada que vai da Mealhada para o Luso.

Foram poucas e agitadas as horas em que consegui conciliar o sono na noite de 24 para 25 de Abril.

Saí de casa muito cedo, antes do sol nascer, para poder circular na minha viatura por diversos percursos de Coimbra e arredores, para ter a certeza de que, quando empreendesse a viagem para a Feira de Santa Luzia, ninguém me seguia…

A cidade estava calma, embora, conforme ainda nessa manhã vim a saber, àquela hora o Rádio Clube Português já tivesse difundido três comunicados do M.F.A., o primeiro às 04:26 horas (o Álvaro Matos, que não me falara das senhas e dos comunicados que durante a noite de 24 de Abril iam ser radiodifundidos. disse-me, cerca de dois meses depois, que, quando, nessa noite, me contactou, não estava na posse dessas informações…).

A pontualidade era outra regra de cumprimento obrigatório na actividade do PCP: o atraso de um dos participantes num encontro do Partido podia significar que ele tinha sido preso e que os outros deviam desmobilizar e afastar-se do local do encontro…

Quando eu e o Victor Costa chegámos ao local combinado, às 07:30 horas, constatei, com preocupação, que o Jorge Seabra ainda não tinha chegado, mas o Victor Costa tranquilizou-me (disse-me que ele não vinha porque não podia participar na reunião), na sequência do que deixei o meu carro ali estacionado e parti, com o Victor Costa, no carro dele, para o local onde iríamos recolher o funcionário do Partido.

Cumprimos, antes de arrancarmos, a regra do «minuto conspirativo», relatando um ao outro as circunstâncias em que decorrera a deslocação de cada um de nós até ali, designadamente se tínhamos notado algum facto suspeito, susceptível de pôr em causa a segurança e a continuação do encontro. 

Durante a nossa curta viagem informei o Victor Costa da visita que o Álvaro Matos me fizera na véspera e da boa notícia que ele me trouxera, o que o alegrou mas também não deixou de o surpreender porque – apesar de sabermos da existência de um movimento de oficiais contra o regime (um dos títulos da primeira página do «Avante!» clandestino de Abril de 1974 era: Aliar à luta antifascista os patriotas das forças armadas) – não sabíamos, nem podíamos saber, se e quando é que a sublevação teria lugar….

Parámos no local onde nos aguardava o funcionário do Partido, cujo nome era e é, conforme, dias depois, fiquei a saber, António Lopes.

Estacionámos num desvio da estrada ali próximo e, depois de termos cumprido, novamente, a regra do «minuto conspirativo», o António Lopes, compreensivelmente excitado, disse-nos que tinha ouvido pessoas a dizerem que havia forças e veículos militares a ocupar ruas em Lisboa e que a rádio estava a emitir comunicados a pedirem para as pessoas não saírem das suas casas.

Contei-lhe então o que já tinha contado ao Victor Costa: a visita que recebera na véspera do Álvaro Matos, a razão pela qual ele a tinha feito, a notícia que ele me dera de que o RAP 3 da Figueira da Foz ia avançar sobre Lisboa e, sobretudo, a informação de que se tratava de um movimento «para acabar com o fascismo e com a guerra colonial, para libertar os presos políticos e para instaurar a democracia»…

Discutimos o que devíamos fazer e – apesar de nenhum de nós ter uma orientação política concreta, emanada de um organismo superior do Partido, para lidarmos com os eventos em curso – concluímos que a reunião agendada não se devia realizar e que a nova situação política exigia que fôssemos todos, inclusive o António Lopes, para Coimbra, para acompanharmos e para influenciarmos, pessoalmente e através das células, dos militantes e dos simpatizantes que nos estavam ligados, os acontecimentos que se estavam a desenrolar…

O que implicava solucionarmos o problema – que, como se verá, resolvemos bem – da defesa do clandestino que levávamos connosco porque íamos metê-lo, à luz do dia, numa cidade sujeita a uma constante e intensa vigilância de um forte dispositivo de agentes e informadores da PIDE…

A reunião do Comité Local de Coimbra (CLC) do PCP da manhã de 25 de Abril de 1974 tinha que se realizar no respeito pelas regras conspirativas cujo cumprimento permitiu ao PCP, durante 48 anos, resistir a uma feroz repressão policial e fortalecer-se e assumir um papel cada vez mais importante na luta do povo português contra a ditadura.

Acresce que ia p…





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