Carlos Faria

O incêndio no HDES e a realidade arquipelágica

13 de Maio de 2024


Sem dúvida que o acontecimento mais marcante nos Açores nos últimos dias foi o incêndio no Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) em Ponta Delgada, sobretudo, pois os seus efeitos foram muito mais vastos que a própria extensão do fogo que não saiu de um edifício técnico, mas veio expor a maior ilha da Região à realidade arquipelágica que as restantes da Região estão habituadas.

Temos que nos congratular pela eficácia dos bombeiros em restringir o incêndio, mas os danos nos sistemas que funcionam em rede no hospital, inclusive circulação de ar colocaram esta infraestrutura inoperacional por uns tempos, que todos desejam que seja o mais curto possível.

Também foram evidentes os esforços do Governo dos Açores em garantir as condições possíveis para que todos doentes continuassem a ter os melhores cuidados de saúde necessários e em segurança, recorrendo a estabelecimentos públicos em várias ilhas dos Açores e Madeira e, sem preconceitos ideológicos, solicitar apoio a privados em São Miguel.

Efetivamente, uma coisa é o Serviço Público de Saúde, Regional ou Nacional, que deve procurar ser o mais extensivo e gratuito dentro das condições financeiras da Região ou do Estado; outra é não ter preconceitos de que este pode coexistir e inclusive contar com investidores privados que pretendam prestar complementarmente cuidados de saúde de uma forma económica rentável.

É verdade que o acesso aos cuidados de saúde é um direito, mas também o é à educação, à habitação e à alimentação e poucos contestam que nos dois últimos os privados contribuem ativamente para satisfazer as necessidades da sociedade ao contrário dos preconceitos ideológicos que afetam os primeiros dois que tem grande adesão a muita gente de esquerda.

O Serviço de Saúde é uma rede pública e como defendo, com o máximo de extensão e gratuito, o Sistema de Saúde deve contar com todos, incluídos os privados que buscam nichos para colmatar lacunas e franjas da sociedade, da cooperação entre ambos, os cidadãos só têm benefícios.

Outro aspeto resultante deste incêndio prende-se com a realidade arquipelágica sentida desta vez pelos micaelenses, não habituados a sair da sua ilha para receberem qualquer serviço e demasiadas vezes com tiques centralistas que dificultam a extensão de determinados serviços e implementação de várias infraestruturas fora de São Miguel.

Se é verdade que o centralismo pode potenciar determinadas sinergias resultantes da concentração de valências, também é verdade que as consequências de um acidente ou catástrofe que o afete podem se tornar muito mais gravosas por inexistência de alternativas geográficas que não sejam afetadas em simultâneo: a concentração é inimiga da redundância e da complementaridade.

Além do aspeto focado acima, o centralismo esvazia vastos territórios cujas potencialidades socioeconómicas passam a ser desperdiçadas por uma região ou país. Veja-se quanto Portugal está a perder na sua rendibilidade pela migração da população do interior para o litoral e quanto os Açores está mais fragilizado por falta de investimento em tantas ilhas menores devido ao decréscimo acentuado da população destas. Basta olhar a pujança que essas terras menores já tiveram no passado pelos seus monumentos e edifícios públicos face ao seu declínio no presente.

Os micaelenses beneficiaram agora de haver uma rede de hospitais respeitadora da tripolaridade que esteve no cerne do atual regime autonómico.

Tentativas de concentrar serviços, com “hubs” ou plataformas logísticas, torna-os mais suscetíveis a catástrofes e contribuem para esvaziar socioeconomicamente as terras que deixaram de ter serviços descentralizados, Este triste incêndio mostrou a importância de se preservar a realidade arquipelágica em todos os serviços regionais a prestar aos Açorianos e de não haver preconceitos ideológicos em aproveitar a capacidade de investidores privados entrarem em cooperação e complementaridade com o setor público, apesar da conveniência de se proteger os cidadãos da ganância que tenta o privado na prestação de serviços em vez de o fazer com um justo lucro.

Sem dúvida que o acontecimento mais marcante nos Açores nos últimos dias foi o incêndio no Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) em Ponta Delgada, sobretudo, pois os seus efeitos foram muito mais vastos que a própria extensão do fogo que não saiu de um edifício técnico, mas veio expor a maior ilha da Região à …





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