Paula Goulart

Calçada da Glória, 68

27 de Março de 2023


Há quem tema que o céu lhe caia sobre a cabeça! De Vercingétorix na sua aldeia gaulesa, puro génio de Goscinny e Uderzo, àquelas e aqueles que sentem arrepios apocalípticos quando se anuncia a aproximação de um meteorito à orbita da orbe terrestre. Deixo de fora os perigos reais do lixo espacial, da sucata sideral, e de gente ainda mais perigosa que usa o espaço do espaço, como um parque de diversões privado, para os seus jogos de guerra e afirmações do ego.

É bem numeroso este grupo de pessoas, de cabeça no ar, farejando desgraças. Nós somos mais outra coisa. E se alguém sentir este “nós” abusivo, desfilie-se deste nós, e sonhe com o orgulho que deve ser saber-se o primeiro açoriano a viajar no espaço, em viagem de lazer, durante quinze minutos!

Nós somos mais outra coisa, gostamos de olhar para o chão, apanhamos níqueis em qualquer latitude, apanhamos lapas em qualquer calhau e temos cuidado com os limos. Não movemos um pé sem o outro estar seguro! Detestamos que a terra trema, que insista no tremor e ficamos profundamente perturbados, quando, por via dos solavancos vulcânico-tectónicos, vemos a crosta a rasgar-se em rachas, que assaltam as cumeadas, atravessam as estradas, derribam e tragam as casas. Rodeados de água como estamos e cientes que não é um bom lugar para caminhadas (salvo honrosas exceções), prezamos o solo que pisamos, e quanto mais firme este for, melhor. Da esteira ao tapete felpudo, dá-nos para mimá-lo; com linóleo ou com sobrado e atenção redobrada ao chiar daquela tábua, a precisar de um arranjo. Na rua, nem mais nem menos. Estenderam-se as lajes aparelhadas, no culminar das várias camadas de entulho e areia, e o império uniu-se e todos os caminhos foram sempre dar a Roma, ou vendo a coisa noutra perspetiva, Roma foi sempre para onde quis... E por onde andou e ficou, foi cultivado o gosto do mosaico, maravilhas de arte e paciência, compostas por milhares de tesselas, que assim asseveravam da riqueza do seu dono, da importância de uma deusa, de um poeta... Ou, então como aquele outro, mais prosaico, descoberto em Pompeia, que avisava os transeuntes CAVE CANEM, o que numa tradução apressada pode sugerir ”cava do cão”, mas que em tradução mais lenta e culta, desvenda o aviso ”cuidado com o cão”, o que em termos de traduções por assonância nem seria das piores, tendo em conta o que ia ser sentido...

Não é a nossa pedraria filha direta de tão insigne origem, mas digamos que, tendo em conta os hiatos temporais, os condicionalismos de matéria prima, carências de mecenato, e variados processos de miscigenação, não saberia em que outra repartição competiria solicitar a sua certidão de nascimento. E de império para império, lá foi a calçada transitando e paramentando as vias e as praças, as avenidas, o ”calçadão”...

Na nossa pequena escala insular, (que neste caso é ainda menor, pois só me refiro a 1/9 dessa insularidade), sobre essa calçada crescemos, demos os primeiros passos de pernas bambas, com as mãos bem aferradas a quem nos fazia o favor de segurar e acompanhar o passo de tartaruga; os mais afortunados e as mais afortunadas deram umas boas curvas e melhores retas de triciclo ou de bicicleta; jogou-se muito à casola, à apanhada até que, a páginas tantas, o passo ficou mais lento, à caranguejo, progredindo muito em viés, tentando de todas as maneiras encontrar a distância mais longa entre dois pontos. Parava-se muito, olhava-se o Pico, o farol, algum barco (havia-os sempre), mas sobretudo fixava-se os olhos lindos, lindos de viver (!) de quem nos acompanhava naquela deleitosa e errática peregrinação, da Poça dos Frades à Ribeira da Conceição, sob os olhares baixos e atentos da Santa na Espalamaca...

Aprendia-se que a vida não é a preto e branco, embora pareça sê-lo, e sobretudo, que as partes que a integram, não são partes iguais, nem complementares, já que uma dessas partes, por ancestrais prebendas, sempre desequilibrou, em seu descarado favor, o rumo da história, o acesso ao poder, e lá se foram as tão alardeadas equidades. Não há mulher que não o saiba. Pode é fazer-se despercebida... Tirem-me da frente o embuste funcional do ying e do yang, e dêem-me o desequilíbrio cromático do empedrado da Avenida onde o basalto predomina e ensina, cristalizando para a posteridade, o que, até há pouco tempo, se limitava a uma leitura simbólica.

”Sous les pavés, la plage!”1  foi um dos poéticos slogans do Maio de 68. Pressupunha o dito, que uma vez estes retirados, e competentemente atirados para onde se achasse mais conveniente, se recuperava a praia sufocada, calcada e massacrada pela pedra e pelos pés, pelos rodados. A retirada dos ladrilhos representava assim a libertação, literal e metafórica, de uma insuportável e longuíssima opressão.

Creio que finalmente encontrei a chave do enigma: é o mesmo, é o mesmo profundo desejo que ressurge, nos dias de hoje, incorporado por aqueles que se propõem, com espantoso afinco, destruir a calçada da avenida marginal. Querem libertar a areia, querem resgatar toda aquela areia que, durante dezenas de anos, serviu de cama passiva aos paralelepípedos, brancos ou negros!

...Só ainda não sei o que farão com os ladrilhos... temo que, à semelhança do que aconteceu, num certo maio, em Paris, no los atirem à cabeça...

Tudo isto pode parecer uma efabulação delirante, carente de crédito e fundamento, mas espero que me acreditem: depois de tudo o que li e do que ouvi, como explicação ou justificação para este trágico evento, em vias de passar a vias de fato, podem crer que esta interpretação que vos proponho faz muito mais sentido, e tem muito mais juízo do que todas as demais, até agora lidas e escutadas.

Na EcoGerontoVia da avenida marginal, sonho, daqui a muitos anos, fazer uma corrida de cadeiras de rodas elétricas, com outras queridas amigas! Vamos atingir velocidades loucas, deslisando, quase sem atrito, sobre belíssimas placas de cimento compactas e luzidias! Que luxo! Que pegada cultural! Enquanto isto, voarão, sobre as nossas cabeças, a zunir, alguns ladrilhos, abaneados por mão hábil – ora agora vai um preto, ora agora vai um branco! E quando nos fartarmos desta trepidante atividade, ainda poderemos dar um EcoPasseio de dois dias, com garantia de órbita estável, em torno do planeta Terra, com duas refeições incluídas e bebidas à descrição. Seguramente iremos muito bem acompanhadas...

E afinal a cultura? Oh! Lamento muito! Da altitude em que estamos não dá para enxergar batatas...

Fica para outra vez! 

   

1 Sob os ladrilhos/paralelepípedos a praia!

Há quem tema que o céu lhe caia sobre a cabeça! De Vercingétorix na sua aldeia gaulesa, puro génio de Goscinny e Uderzo, àquelas e aqueles que sentem arrepios apocalípticos quando se anuncia a aproximação de um meteorito à orbita da orbe terrestre. Deixo de fora os perigos reais do lixo espacial, da sucata sideral, e de gente…





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