Carlos Faria

Senhor, estou farto!

05 de Setembro de 2023


Goste-se ou não, o único setor económico que tem efetivamente crescido em todas as ilhas dos Açores nos últimos anos tem sido o do Turismo.  Pessoalmente, eu não gosto de ver o crescimento económico da maioria das ilhas tão dependente de um único setor como o turismo, tenho ainda memória da época em que várias das ilhas deste Arquipélago tinham indústria com alguma pujança que garantiam emprego a muita gente e no Faial sempre existiu um conjunto de outros serviços.

No Faial havia indústria conserveira de peixe, havia cerâmica, havia indústria de licores, refrigerantes e confeitaria, entre outras menores, tudo isso se foi! Ora silenciosamente.. ora com estrondo, como foi o fecho da fábrica do peixe e pouco se pode acusar o centralismo regional desse declínio, fora mais consequência da globalização do que de estratégias de gestão política na autonomia açoriana.

Situação bem diferente foi o fecho da rádio naval no setor dos serviços, este foi fruto duma estratégia concertada entre o centralismo da gestão do Governo dos Açores de então e a Marinha, esta ávida de colocar as famílias dos deslocados para esta atividade num centro urbano maior como Ponta Delgada, em detrimento da cosmopolita, mas pequena, cidade da Horta.

O Turismo é um daqueles setores de atividade que menos controlo do seu evoluir existe no local onde ele se instala e, nas ilhas pequenas, este autocontrolo é ainda menor. Nestas, este depende, em primeiro lugar, da vontade dos turistas que vivem fora das ilhas visitadas, sendo cada uma destas demasiado pequena para levar a cabo campanhas de promoção agressivas nos locais de captação dos visitantes e, em segundo lugar, ficam reféns de uma estratégia política de transportes externa que seja capaz de encaminhar os viajantes, entre a origem e o destino destes turistas, de forma rápida e pouco incómoda para os passageiros.

Neste último campo, há décadas que sinto que: quer empresas públicas gestoras de infraestruturas de transporte: como portos e aeroportos; quer empresas privadas e públicas gestoras dos equipamentos de transporte: como navios e aviões; e ainda os estrategas da política regional das rotas e disponibilização de vagas de passageiros destas empresas e do Governo dos Açores seguem todos objetivos centralistas dentro do Arquipélago.

Ao longo de anos, vi como se encolheu o projeto da baía norte do porto da Horta, como se tem abusado de desculpas para não se ampliar convenientemente a pista do aeroporto no Faial, como as empresas de transportes têm, de uma forma enviesada, favorecido entradas nos Açores através das duas ilhas mais populosas, como os Governos dos Açores encomendam “estudos”, como os Executivos Regionais têm sido capazes de privilegiar compras de aviões que sabiam não servir as gateways fora daquelas mesmas 2 ilhas, como continuam a acordar com as empresas para assegurar a prestação de serviços com o mínimo de perdas sempre para as mesmas duas ilhas e como se escondem na desculpa da estratégia empresarial e concorrência comercial quando se trata de defender a oferta para destinos como o Faial.

Não vou esmiuçar pormenores técnicos e as situações concretas mais recentes, até porque a estratégia centralista vem cheia de poeira para os olhos, desculpas e artimanhas para disfarçar a realidade deste centralismo encapotado e intencional. Há gente que conhece estes meandros muito melhor do que eu e fá-lo-á se quiser, expondo o escondido nas entrelinhas destas opções estratégicas e soluções: desde horários e dias menos convenientes para nós, passando por acordos com empresas privadas em nome dos apelos de representantes regionais que não pensam os Açores como nove ilhas, até às dificuldades financeiras que dificultam obras numas ilhas mais que noutras. Basta olhar e ver os frutos do pacote no seu todo.

Havia uma canção cujo refrão insistentemente dizia: “Senhor, estou farto!”

Não tenho voz para cantar, mas tenho dedos para teclar: “Senhor, estou farto!”

Goste-se ou não, o único setor económico que tem efetivamente crescido em todas as ilhas dos Açores nos últimos anos tem sido o do Turismo.  Pessoalmente, eu não gosto de ver o crescimento económico da maioria das ilhas tão dependente de um único setor como o turismo, tenho ainda memória da época em que vár…





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