Carlos Faria

Do nepotismo e oportunismo ao desmoronamento

24 de Janeiro de 2023


Ser colunista residente de um jornal de informação local, como é o caso do “Incentivo”, onde tanto os problemas da terra, como os defeitos da generalidade dos nossos governantes (aqui incluindo uma extensão geográfica bem mais vasta) são os mesmos e se arrastam ao longo de muitos e muitos anos, não resulta numa tarefa fácil para selecionar temas a abordar. Com o passar do tempo, sentimo-nos repetitivos e apenas a dissecar variações de pormenor sobre os mesmos assuntos.

Talvez a concentração de escândalos a afetar o Governo de António Costa seja algo raro, mas não deixa de ser uma variante em torno do mesmo pecado que se aponta a muitos políticos: o servirem-se do cargo em benefício próprio; ora no estrito permitido pela Lei ora abusando desta.

A existência de numerosas relações de parentesco nos membros que constituem um mesmo Governo e em simultâneo estendida aos gestores de empresas públicas sob a tutela deste e às chefias na administração pública - o designado pelo palavrão: nepotismo - é algo que sempre assisti. Pese embora que nesta época e para algumas famílias este fenómeno seja mais expressivo.

O nepotismo leva sempre a acusações da oposição aos governantes de favorecimento dos familiares e à desculpa destes de que nada tiveram a ver com o parentesco, repetindo o desgastado argumento de que as escolhas recaíram apenas nas pessoas mais aptas e estas não deveriam ser prejudicadas nas suas profissões e carreiras apenas porque tinham familiares no poder.

Contudo, parece que quando mudam as cores do poder dá-se uma transformação na sociedade onde a capacidade de exercer funções mais elevadas e de maior remuneração no setor público pula, como por milagre, de gente que era da cor anterior para pessoas que são da nova cor. Uma migração difícil de explicar cientificamente, mas, a verdade é que no anterior ciclo político também se concentrara nos da anterior cor e os atuais ex-governantes então não viam isso.

Igualmente (posso colocar o dilema deste modo), compreendo que nenhum político deve ser inibido de aceitar um cargo de governante para não prejudicar a carreira dos seus parentes, mas torna-se difícil explicar porque, de repente, os mais aptos a ocupar cargos sob a sua tutela abundam nos poucos membros da sua pequena família e sejam bem mais escassos nas numerosas pessoas que não partilham laços de parentesco com ele!

Nos casos de nomeação direta, talvez o novo governante conheça melhor as virtudes daqueles com quem convive e é saudável ver os méritos dos familiares, mas esta aptidão que se concentra nos parentes e aumenta de frequência quando ascende ao poder e parece alastrar-se aos concursos dos serviços da sua alçada, ao moldar-se a estrutura administrativa à sua vontade, é algo que a ciência não explica…

Infelizmente, estas situações mancham os novos ciclos políticos e não resolvem os antigos problemas, antes agudizam-nos com o decorrer do tempo. Assim, estas alternâncias com estes vícios não consegue assegurar o desenvolvimento de Portugal e daí estar a crescer o descontentamento com o progressivo decrescer do poder de compra dos Portugueses.

É por isso que se a austeridade do anterior ciclo em Lisboa, onde os cortes eram assumidos, diretos e maiores para os salários mais elevados; no atual ciclo, cheio de nepotismo e oportunismo, esta foi não só camuflada por cativações que impediram a realização de projetos essenciais, mas também mantida através de aumentos de impostos, cuja forma indireta anestesiou muita gente, mas que com a inflação penaliza, sobretudo, os de menores rendimentos. Assim, a esperança está a desaparecer e a levar à agitação social que se assiste no Continente, devido às cada vez maiores dificuldades na classe média, mesmo que os dados estatísticos saídos oportunamente neste momento de greves digam que o risco de pobreza diminuiu.

Neste momento o Governo de Costa já colhe as sementes da demagogia que lançou. Nepotismo, por cá e lá, e o oportunismo já desmascarado em Lisboa, só constroem castelos de cartas que aos primeiros sopros desmoronam. Seria bom que por cá se aprendesse com os erros dos outros enquanto é tempo.

Ser colunista residente de um jornal de informação local, como é o caso do “Incentivo”, onde tanto os problemas da terra, como os defeitos da generalidade dos nossos governantes (aqui incluindo uma extensão geográfica bem mais vasta) são os mesmos e se arrastam ao longo de muitos e muitos anos, não resulta numa tarefa fácil par…





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