Carlos Frayão

A propósito do falecimento da Rainha Isabel II

22 de Setembro de 2022


Sou capaz de compreender a perda que o falecimento da Rainha Isabel II representou para os britânicos, mas não aceito o massacre a que as televisões portuguesas nos sujeitaram a propósito da morte da monarca, durante onze dias, quase ininterruptamente, com notícias, reportagens e comentários sobre temas como, entre outros, as suas exéquias, as regras da sua sucessão, as manifestações de pesar dos britânicos, as dúvidas sobre o desempenho de Carlos III e as inevitáveis novelas, passadas e presentes, envolvendo membros da família real... 

Vi e ouvi numerosas entrevistas e debates sobre as razões pelas quais a monarquia britânica, com quase mil anos de existência, ainda sobrevive num mundo cada vez mais republicano, mas não me lembro de alguém se ter referido ao peso que teve nessa sobrevivência o facto de a primeira revolução burguesa da História ter acontecido em Inglaterra, muito antes de as revoluções burguesas terem ocorrido na Europa continental.

A chamada Revolução Inglesa foi o lento e longo processo pelo qual, entre os séculos XVI e XVIII, a burguesia inglesa dominou o comércio e a produção, conquistou o poder político, promoveu a primeira revolução industrial e inaugurou uma nova fase do modo de produção capitalista.

Em tal processo o incremento do comércio de lã para a produção de lanifícios levou uma parte da aristocracia inglesa, que também quis beneficiar desse comércio, a abandonar as formas tradicionais de exploração das suas terras e a convertê-las em pastagens para a criação de gado lanígero (expulsando delas milhares de camponeses e de rendeiros que vieram a ser os potenciais assalariados da futura revolução industrial), tendo levado a nova burguesia comercial, ao mesmo tempo, a comprar terras aos aristocratas.

A maior parte da aristocracia inglesa compreendeu, assim, que a sua prosperidade dependia da prosperidade da burguesia, tendo-se estabelecido entre ambas um compromisso que explica o triunfo fácil – sem derramamento de sangue, aliás – do movimento de 1689 que ficou conhecido como glorious revolution, que impôs ao novo rei o Bill of Rights que consagrou a subordinação do poder real ao poder parlamentar.

A revolução burguesa em Inglaterra não precisou, por isso, diversamente do que aconteceu em muitos países da Europa continental, de derrubar a monarquia para alcançar os instrumentos jurídicos e políticos necessários ao desenvolvimento das relações de produção capitalistas.

Uma das explicações mais ouvidas para a longevidade da monarquia no Reino Unido é a do apego do povo britânico às suas instituições tradicionais.

Respeito as tradições dos britânicos e respeito os monárquicos, mas considero retrógrado o regime de um país desenvolvido cujos chefes de Estado, em pleno século XXI, são designados por regras dinásticas (hereditárias), ainda que o seu poder seja simbólico, como sucede na monarquia britânica.

Os regimes monárquicos atribuem a alguns indivíduos, em função do seu nascimento, privilégios políticos, sociais e económicos que fazem tábua rasa de uma das mais importantes conquistas da Revolução Francesa, consagrada na Declaração Universal dos Direitos do Homem, a saber, «todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos».

Assim, pela cobertura exagerada que fez do evento e pelo tratamento encomiástico que deu à monarquia britânica, não foi positivo, a meu ver, o papel da generalidade das televisões portuguesas na divulgação da notícia do falecimento de Isabel II. 

Acresce que esta cobertura e este tratamento – que, remetendo as pessoas para imaginários “contos de príncipes e de princesas”, contribuem para as alhear (alienar) dos seus reais problemas – têm na sua base apenas opções empresariais de maximização dos lucros que as audiências de certos programas, associadas à publicidade, proporcionam às televisões…

E não me digam que se terá passado o mesmo noutros países da Europa e da América, onde os números das audiências sobre a morte de Isabel II também terão sido exponenciais, porque, se assim tiver sido, tal só demonstrará que a alienação é mais vasta do que eu, optimisticamente, supunha…

Sou capaz de compreender a perda que o falecimento da Rainha Isabel II representou para os britânicos, mas não aceito o massacre a que as televisões portuguesas nos sujeitaram a propósito da morte da monarca, durante onze dias, quase ininterruptamente, com notícias, reportagens e comentários sobre temas como, entre outros, as suas exéquias, as reg…





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