03 de Junho de 2022
Cientista propõe criptomoeda que beneficia quem restaura ecossistemas
Lusa

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O investigador do departamento de Física e Astronomia da Universidade do Porto Orfeu Bertolami defende a criação de um “contrato digital” que remunera com criptomoedas quem provar que restaurou um ecossistema.
Este modelo surge em alternativa às taxas de carbono e ao mercado de emissões, cujas receitas vão para os Estados, que o podem investir como quiserem, não necessariamente em medidas que beneficiem o ambiente, explica, em entrevista à Lusa.
O físico teórico tem-se dedicado a estudar a física do clima e das alterações climáticas, tendo criado a equação do antropoceno, que permite medir o impacto da atividade humana no clima.
Bertolami propõe a criação de um “’resilient social tax’ (taxa social resiliente, em tradução livre), que devia ser colocado em todo o tipo de consumo nos países ricos. Consumiu, tem de pagar, e [a receita] tem de ser utilizada para restaurar ecossistemas ou capturar CO2 [dióxido de carbono] – só para essas duas coisas”.
A solução para a emergência climática e as crises ambientais a ela associadas, defende, “são as comunidades, os grupos”.
“A minha ideia é criar uma nova criptomoeda, chamada Planetary Boundary Cryptocoin. As pessoas aderem a esse contrato digital, por tecnologia ‘blockchain’, recebem capital, que pode ser, inicialmente, capital a sério, e restauram ecossistemas. O ‘proof of work’ (protocolo de segurança) que tem de se fazer para receber criptomoeda, é provar que o trabalho de restauro foi feito”, esclarece.
Questionado sobre o esforço energético que é necessário para gerar uma criptomoeda, o físico adiantou que a simplicidade do protocolo de segurança resolve essa questão.
Este intento surgiu-lhe “naturalmente”, porque a criptomoeda “foi inventada para evitar a inflação, a especulação”, por haver uma quantidade fixa de moedas, no caso da pioneira bitcoin.
“O que propomos é uma coisa ainda mais material. O valor da moeda está ajustado segundo os parâmetros terrestres. Não posso criar mais moeda do que os recursos do planeta – é mesmo muito físico”, atira.
Bertolami acredita: “se criarmos essa dinâmica, não precisamos mais dos governos, podem ir passear”.
“Queremos o melhor para os portuguesas, os italianos, os indianos, e assim sucessivamente, mas isso não tem nada a ver com o sistema terrestre, que é para todos. Essa divisão geográfica, política, dos países, é completamente incompatível com a lógica do problema que temos em mãos, que é global. As alterações climáticas não vão parar na fronteira. Essa é a maior dificuldade”, afirma.
Para o cientista, “o principal responsável pela situação a que chegámos é essa ideologia económica de crescer continuamente e consumir continuamente”.
“É um planeta finito. Os recursos são limitados e isso tem consequências socioeconómicas muito claras”, destaca.
Orfeu Bertolami refere que, “entre 1500 e 2000, a população cresceu 14 vezes. Nesse mesmo período, a riqueza cresceu 250 vezes – há riqueza para todos”.
“O problema das alterações climáticas é o mesmo da desigualdade social. Não consigo resolver um sem resolver o outro”, frisa.
Apesar da dimensão do problema das alterações climáticas, destaca como “extremamente positivo que a sociedade se esteja a mobilizar para colocá-lo no contexto que permite a sua solução”. 

O investigador do departamento de Física e Astronomia da Universidade do Porto Orfeu Bertolami defende a criação de um “contrato digital” que remunera com criptomoedas quem provar que restaurou um ecossistema.
Este modelo surge em alternativa às taxas de carbono e ao mercado de emissões, cujas receitas vão para os Estados, que o podem i…





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